Reportagem do jornal O Dia:
Desperdício
inexplicado
Estado
não enviou ao departamento de auditoria do Ministério da Saúde
justificativas para ter deixado R$ 15,6 milhões em remédios
estragarem ou perderem a validade
PÂMELA OLIVEIRA
A Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil não apresentou
justificativas para a maioria dos problemas apontados na auditoria
realizada em novembro pelo Departamento de Auditoria do Sistema Único
de Saúde (Denasus), do Ministério da Saúde. Segundo o relatório
final do Denasus, ao qual O DIA teve acesso ontem, o índice de
cobertura dos remédios que deveriam ser fornecidos a doentes
crônicos é "insatisfatório" e "o gerenciamento do
estoque é ineficaz, pois as perdas de medicamentos, insumos e
material médico hospitalar foi elevada" - de R$ 15,6 milhões,
segundo o Denasus.
Conforme
O DIA mostrou com exclusividade há uma semana, o Ministério Público
Federal (MPF) decidiu dar prosseguimento à ação civil pública
contra a Secretaria Estadual de Saúde para que o órgão normalize o
fornecimento dos remédios aos pacientes. Há dois anos, a ação
havia sido suspensa porque o estado assinara Termo de Ajustamento de
Conduta, se comprometendo a regularizar o fornecimento e inaugurar
farmácia com condições de armazenar remédios. O termo, no
entanto, não foi cumprido.
"O
relatório final do Denasus confirma o teor do preliminar (que já
apontava o desperdício de R$ 15, 6 milhões). O mais grave é que o
estado apresentou poucas justificativas", afirma a procuradora
da República Aline Mancino da Luz Caixeta. O estado diz que enviou
em 25 de fevereiro ofício solicitando 20 dias para responder ao
Denasus. Em dezembro, no entanto, o órgão federal enviara o
relatório preliminar informando que o estado tinha 15 dias para
responder.
ROYALTIES DE PETRÓLEO
O estado alega ainda, oficialmente, que o desperdício de
remédios e materiais não chega a R$ 15,6 milhões, mas também não
especifica quantia. O governo estadual poderá ter cerca de R$ 8,4
milhões dos royalties de petróleo bloqueados por mês para garantir
o fornecimento dos medicamentos aos pacientes, caso a Justiça acate
pedido do MPF. O requerimento foi para que 5% dos royalties sejam
bloqueados.
"Sou
transplantado e tento, desde setembro, receber Certican, que evita a
rejeição do fígado. Tenho liminar que me garante o remédio, mas o
estado não entrega. Só consigo por doações", conta Paulo
Oliveira, 52. A caixa do remédio custa R$ 1.010. O estado diz ter
aberto licitação para a compra do remédio, mas não deu prazo de
entrega.
Remédios
podem perder efeito por causa do calor
Os
pacientes com doenças crônicas que não conseguem receber seus
remédios não são os únicos prejudicados. Relatório final do
Denasus recomenda que o estado corrija "possíveis avarias nos
refrigeradores" para impedir "oscilações inaceitáveis em
sua temperatura para que seja garantida a integridade dos
medicamentos ali armazenados".
O
Denasus constatou que remédios que deveriam ficar resfriados em
temperaturas de 2 a 8 graus estavam em geladeiras com temperaturas
que variavam entre 17 e 21.O documento apontou ainda que o estado
deve "monitorar as temperaturas dos remédios armazenados fora
dos refrigeradores".
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